quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Dos caminhos que tomamos para lugar algum

Parte I Certo dia apareceu um menino que tinha tudo o que queria, mas não estava satisfeito com as coisas que ainda não tinha. Ele olhava todas as decisões que tomou em seu passado e no entanto, todas elas pareciam tão erradas, não sabia porque as tomou naquela época. Foi pensando, perfazendo o percurso de sua longa caminhada de 30 anos de pura meninice, do espírito jovem e aventureiro que possuía. De repente, tudo clareou em sua mente, tudo fez sentido, parecia mais um quebra-cabeça que ele agora estava montando ali naquele mente ávida, profunda e transbordante. Cada uma daquelas escolhas, cada uma delas agora fazia sentido, tinha um porquê, tinha um motivo, estava tão claro. Ele olhou pra si e viu o menino-homem que ele era hoje, pensou em cada um dos amigos que levou consigo ao longo da vida e os que deixou para trás. Pensou profundamente nas decepções amorosas que teve, nos sofrimentos e nos amores e paixões que vieram junto nesse pacote de emoções. “Que delícia”, ele pensou. “Tudo tão gostoso e com gosto de começos e recomeços, tudo isso me trouxe aqui”. Aquele dia em que caiu do alto do pé de mangueira, quando tentou pegar uma manga na parte mais baixa da árvore se dependurando. Lembrou-se do tanto que sofreu com o braço engessado, o sofrimento do gesso coçando no calor, mas ai lembrou também do gostinho da manga tirada do pé, suculenta, fresquinha da hora. Como poderia ter passado por tudo na vida sem aquela manguinha? “Eu não saberia o que é comer fruta do pé.” – pensou. E aquela vez em que entregou uma florzinha para a menina do jardim de infância que achava mais legal, porque sempre dividia com ele o waffer e o refrigerante no recreio. Ela pegou a florzinha, achou linda, ficou feliz, mas depois deixou cair, sem dar a mínima importância, como se aquela florzinha não representasse todo o sentimento que por ela depositava. Era um gesto, era criança e não sabia do profundo significado que tinha, mas mesmo assim no dia, se sentiu triste e aquele foi o último dia que dividiram algo no recreio. Qual seria o significado de todas as desilusões amorosas futuras, se já não tivesse experimentado esse amor de criança, inocente e descompromissado, bobo, que a gente leva com o passar dos anos, nos côncavos da memória? Acho que teriam uma importância muito maior ou muito menor. Muito maior, porque na primeira desilusão poderia ter se afundado no desespero da perda e achar que podia ser a primeira morte, como uma gato de sete vidas. Ou poderia ser muito menor, pois por nunca ter vivido uma desilusão amorosa, não saber como lidar, não ter maturidade o suficiente pra dar a importância devida a um amor perdido e tornar aquele acontecimento algo extremamente insignificante.

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